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A isotretinoína, conhecida popularmente como Roacutan®, é considerada o tratamento mais eficaz para casos moderados e graves de acne. Seu impacto na qualidade de vida é inegável, mas seus efeitos não se restringem à pele.
Nas últimas décadas, médicos, fisioterapeutas e pesquisadores passaram a relatar uma série de manifestações musculoesqueléticas associadas ao uso da medicação, incluindo dor muscular, dor articular, dor lombar e alterações tendíneas.
Mas existe realmente uma relação entre isotretinoína e tendões?
Uma revisão sistemática publicada em 2024 procurou responder essa pergunta ao reunir toda a literatura disponível sobre complicações musculoesqueléticas relacionadas ao uso da isotretinoína.
O que a revisão encontrou?
Os pesquisadores analisaram 49 estudos publicados entre 2000 e 2022, incluindo estudos observacionais, séries de casos e relatos de caso.
Os sintomas musculoesqueléticos mais frequentemente reportados foram:
Dor lombar mecânica
Dor lombar inflamatória
Mialgia (dor muscular)
Artralgia (dor articular)
Letargia
Sacroiliíte
Tendinopatias
A dor lombar foi o efeito adverso mais frequentemente observado, aparecendo em até 74% dos pacientes em alguns estudos analisados. Entretanto, para quem trabalha com esporte e reabilitação, os achados relacionados aos tendões merecem atenção especial.
O que aconteceu com os tendões?
A revisão identificou relatos de tendinopatia e entesopatia do tendão de Aquiles associados ao uso da isotretinoína.
No conjunto dos estudos incluídos, foram descritos oito casos de tendinopatia de Aquiles. Além disso, um dos estudos analisados investigou, por ultrassonografia, possíveis alterações na espessura de cartilagens e tendões durante o tratamento com isotretinoína.
Embora o número absoluto de casos seja pequeno, a presença repetida desses relatos em diferentes publicações sugere que o tendão de Aquiles pode ser uma das estruturas suscetíveis aos efeitos musculoesqueléticos da medicação.
O Roacutan causa tendinopatia?
Essa é a pergunta mais importante — e a resposta exige cautela.
A revisão não demonstra que a isotretinoína causa tendinopatia de Aquiles. O que ela mostra é a existência de uma associação descrita na literatura científica.
Grande parte das evidências disponíveis vem de relatos de caso e séries de casos, desenhos importantes para levantar hipóteses, mas insuficientes para comprovar causalidade.
Portanto, a literatura atual permite afirmar que:
Casos de tendinopatia de Aquiles foram descritos durante o uso de isotretinoína.
A relação causal ainda não foi definitivamente estabelecida.
São necessários estudos prospectivos de melhor qualidade para determinar o real risco.
Existe relação com a dose?
Alguns estudos incluídos na revisão observaram que doses cumulativas mais elevadas estavam associadas a maior intensidade de sintomas musculoesqueléticos, especialmente dor lombar.
Os autores destacam que pode existir uma relação dose-dependente para determinadas manifestações musculoesqueléticas. Contudo, os dados disponíveis ainda são insuficientes para definir um limiar de risco para tendinopatias.
E os atletas?
Um aspecto interessante discutido pelos autores envolve a prática esportiva.
Um dos estudos incluídos observou que a maioria dos pacientes que desenvolveram mialgia e fraqueza muscular durante o tratamento era composta por atletas ou indivíduos submetidos a níveis elevados de atividade física.
Embora isso não prove maior risco para atletas, levanta uma hipótese relevante: indivíduos expostos a maiores cargas mecânicas podem perceber mais facilmente os efeitos musculoesqueléticos da medicação.
O que fazer na prática?
Se você utiliza isotretinoína e desenvolveu dor persistente no tendão de Aquiles, dor lombar sem explicação aparente ou sintomas musculoesqueléticos que não estavam presentes antes do tratamento, converse com o médico responsável.
Da mesma forma, fisioterapeutas e profissionais que trabalham com atletas devem considerar o uso da isotretinoína durante a avaliação clínica.
Nem toda dor no tendão é resultado de excesso de carga.
Em alguns casos, medicamentos em uso podem estar contribuindo para o quadro clínico.
Conclusão
A revisão sistemática mais recente sobre isotretinoína e complicações musculoesqueléticas identificou relatos de tendinopatia e entesopatia do tendão de Aquiles associados ao uso da medicação.
As evidências atuais ainda não permitem afirmar uma relação causal definitiva, mas são suficientes para justificar atenção clínica quando sintomas tendíneos surgem durante o tratamento.
A principal mensagem do estudo é simples: pacientes em uso de isotretinoína devem ser monitorados não apenas pelos efeitos na pele, mas também por possíveis manifestações musculoesqueléticas.
Quando a dor aparece, o tendão também merece ser investigado.
Referência: Almutairi RR, Almutairi AG, Alhallafi AF, et al. Isotretinoin musculoskeletal side effects: a systematic review. Dermatology Reports. 2024;16:9845.








