Flywheel Leg Curl em atletas com histórico de lesão de Isquiotibiais: evidências de um ensaio clínico randomizado

Rodrigo Oliveira
Achilles IA

Olá, Grupo!

As lesões musculares dos isquiotibiais continuam sendo um dos problemas mais recorrentes nos esportes que envolvem corrida em alta velocidade, como futebol e rugby. Além da elevada incidência, essas lesões apresentam taxas relevantes de recorrência, frequentemente relacionadas a déficits persistentes de função muscular após o retorno ao esporte. Entre os fatores modificáveis mais discutidos na literatura estão a redução da força excêntrica dos flexores do joelho e o encurtamento dos fascículos do bíceps femoral longo (BFLH), características associadas a maior risco de lesão. Dentro desse contexto, intervenções capazes de promover adaptações estruturais e funcionais nesses parâmetros têm sido investigadas como estratégias de prevenção terciária. Um ensaio clínico randomizado recente avaliou os efeitos da inclusão do flywheel leg curl em um programa de treinamento preventivo realizado por atletas com histórico de lesão de isquiotibiais.

Desenho do estudo

O estudo incluiu 26 atletas de futebol e rugby, profissionais ou semiprofissionais, que haviam sofrido uma lesão estrutural unilateral de isquiotibiais nos 18 meses anteriores. Todos os participantes estavam plenamente reintegrados às atividades esportivas no momento da inclusão no estudo.

Os atletas foram randomizados em dois grupos:

  • CON – treinamento utilizando leg curl convencional

  • FLY – treinamento utilizando leg curl em equipamento flywheel

Ambos os grupos realizaram um programa preventivo de 8 semanas, com frequência de duas sessões semanais, integrado às rotinas normais de treinamento esportivo. O protocolo incluiu exercícios de estabilidade lombo-pélvica, exercícios de força para membros inferiores e o leg curl específico de cada grupo.

Os desfechos primários foram:

  • força excêntrica dos flexores do joelho

  • comprimento de fascículo do bíceps femoral longo (BFLH)

Entre os desfechos secundários foram avaliados força isométrica, flexibilidade dos isquiotibiais, espessura muscular e ângulo de penação. Além disso, os atletas foram acompanhados por 6 meses após a intervenção para monitoramento de relesões.

Principais resultados

Após o período de intervenção, o grupo que realizou o treinamento com flywheel apresentou adaptações significativamente superiores nos desfechos primários.

O aumento médio da força excêntrica foi de aproximadamente 19% no grupo flywheel, comparado a 6% no grupo convencional. Da mesma forma, o comprimento de fascículo do BFLH aumentou cerca de 9% no grupo flywheel, enquanto no grupo convencional o aumento foi de aproximadamente 2%.

Além disso, o grupo flywheel demonstrou maiores ganhos em:

  • força isométrica dos flexores do joelho

  • flexibilidade ativa dos isquiotibiais (teste MHFAKE)

Essas adaptações são potencialmente relevantes, uma vez que déficits nessas variáveis já foram associados a maior risco de lesões musculares recorrentes em atletas. Durante o período de acompanhamento de seis meses, foram registradas três relesões no grupo convencional e uma relesão no grupo flywheel, resultando em uma razão de risco de 3,0 para o grupo convencional. Entretanto, os autores ressaltam que o número reduzido de eventos gera ampla incerteza estatística, impedindo conclusões definitivas sobre o efeito da intervenção na prevenção de relesões.

Interpretação fisiológica

Os resultados podem ser parcialmente explicados pelas características mecânicas do treinamento com flywheel. Diferentemente dos exercícios com resistência tradicional, nos quais a carga é limitada pela capacidade concêntrica do músculo, os dispositivos flywheel permitem uma maior produção de força durante a fase excêntrica do movimento. Essa sobrecarga excêntrica mecânica tem sido associada a adaptações musculares específicas, incluindo aumento da força excêntrica e alongamento dos fascículos musculares.

Do ponto de vista estrutural, fascículos mais longos implicam maior número de sarcômeros em série, o que pode reduzir a suscetibilidade do músculo a danos durante ações excêntricas em grandes amplitudes. Esse mecanismo tem sido frequentemente proposto como um dos fatores que contribuem para a redução do risco de lesões musculares.

Implicações clínicas

Os achados deste ensaio clínico sugerem que a inclusão do flywheel leg curl em programas de prevenção pode promover adaptações relevantes na arquitetura e função dos músculos isquiotibiais em atletas com histórico de lesão.

Essas adaptações são comparáveis às observadas em protocolos excêntricos amplamente utilizados, como o Nordic hamstring exercise, que também demonstram efeitos positivos sobre a força excêntrica e o comprimento de fascículo do bíceps femoral.

Contudo, os autores destacam que ainda são necessários estudos com amostras maiores e monitoramento detalhado da exposição ao treino e aos jogos para determinar com maior precisão o impacto dessas adaptações na redução real do risco de relesão.


Referência

Sampietro M, Campana V, Thiem LP, Albarenque M, Oliveira RR, Baroni BM.
Effects of Flywheel Leg Curls on Muscle Structure and Function in Athletes with a History of Hamstring Strain Injury: A Randomized Controlled Trial.
Sports Health. 2025. doi:10.1177/1941738125135596

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