Olá, Grupo!
Saiu um estudo interessante no International Journal of Sports Physical Therapy que ajuda a esclarecer uma dúvida frequente na prática clínica: qual é, de fato, a relação entre dor e estrutura do tendão na tendinopatia de Aquiles?
.A relação entre dor e alterações estruturais do tendão continua sendo um dos temas mais discutidos na literatura sobre tendinopatias. Embora o exame clínico seja fundamental para o diagnóstico e monitoramento da tendinopatia de Aquiles, ainda existe debate sobre até que ponto diferentes medidas de dor refletem alterações estruturais do tendão.
Em muitos casos, pacientes apresentam alterações estruturais relevantes em exames de imagem com pouca dor, enquanto outros relatam dor significativa com alterações estruturais relativamente discretas. Essa dissociação entre estrutura e sintomas tem levado a questionamentos sobre o valor diagnóstico de determinadas medidas clínicas de dor.
Um estudo recente publicado no International Journal of Sports Physical Therapy investigou de forma sistemática essa questão ao analisar a relação entre diferentes medidas clínicas de dor e parâmetros estruturais do tendão em pacientes com tendinopatia de Aquiles na porção média.
Objetivo do estudo
O objetivo principal do estudo foi investigar a associação entre diferentes medidas clínicas de dor e alterações estruturais do tendão avaliadas por ultrassonografia. Além disso, os autores buscaram determinar se essas medidas representam dimensões distintas ou sobrepostas da experiência dolorosa na tendinopatia.
Desenho do estudo
Foi conduzido um estudo transversal com 182 participantes diagnosticados com tendinopatia de Aquiles na porção média. Todos os participantes foram avaliados em uma única sessão clínica que incluiu:
avaliação de diferentes medidas de dor relacionadas ao tendão
avaliação ultrassonográfica da morfologia do tendão de Aquiles
As medidas de dor analisadas incluíram:
dor à palpação do tendão
dor recordada pelo paciente (recall pain)
limiar de dor à pressão (Pressure Pain Threshold – PPT)
dor durante salto (pain during hopping)
Essas variáveis foram comparadas com três parâmetros estruturais do tendão avaliados por ultrassonografia:
espessura do tendão
grau de espessamento
área de secção transversal do tendão (cross-sectional area – CSA)
Para análise estatística, os autores utilizaram correlação de Spearman para avaliar a relação entre variáveis e modelos de regressão linear para investigar se a dor à palpação permanecia associada às características estruturais do tendão após controle do limiar de dor à pressão.

Principais resultados
Os resultados mostraram inicialmente que todas as medidas de dor apresentaram correlação significativa entre si, com coeficientes variando entre |r| = 0,19 e 0,51. Esse achado sugere que essas medidas compartilham componentes comuns da experiência dolorosa.
No entanto, quando os pesquisadores analisaram a relação entre essas medidas clínicas e as características estruturais do tendão, um resultado específico se destacou.
A dor à palpação foi a única medida clínica de dor significativamente associada à estrutura do tendão.
Mais especificamente, a dor à palpação apresentou associação com:
espessura do tendão (r = 0,20; p = 0,007)
área de secção transversal do tendão (r = 0,21; p = 0,005)
Nos modelos de regressão linear, mesmo após controle do limiar de dor à pressão, a dor à palpação permaneceu como preditor significativo de múltiplos parâmetros estruturais do tendão:
espessura do tendão (β = 0,03; p = 0,002)
área de secção transversal (β = 0,04; p = 0,003)
grau de espessamento do tendão (β = 0,02; p = 0,028)
Por outro lado, outras medidas frequentemente utilizadas na prática clínica — como dor recordada, limiar de dor à pressão e dor durante salto — não apresentaram associação significativa com as alterações estruturais avaliadas.
Interpretação dos resultados
Os resultados deste estudo sugerem que diferentes medidas de dor capturam dimensões distintas da experiência dolorosa na tendinopatia de Aquiles.
Algumas medidas podem refletir predominantemente aspectos relacionados à sensibilidade à dor ou ao processamento nociceptivo central, enquanto outras parecem estar mais diretamente relacionadas à condição estrutural local do tendão.
Nesse contexto, a dor evocada durante a palpação do tendão pode representar um estímulo mecânico diretamente aplicado ao tecido afetado, o que pode explicar sua associação com alterações estruturais como aumento da espessura e da área de secção transversal do tendão.
Implicações para o exame clínico
Do ponto de vista clínico, os achados reforçam a importância de uma avaliação física detalhada na tendinopatia de Aquiles.
Apesar do crescente uso de exames de imagem e instrumentos padronizados de avaliação de dor, a palpação do tendão permanece uma ferramenta simples e potencialmente informativa no exame físico.
Esse achado também sugere que diferentes medidas de dor não devem ser interpretadas como redundantes, mas sim como avaliações de diferentes dimensões da condição clínica do paciente.
Portanto, uma avaliação clínica abrangente da tendinopatia de Aquiles deve integrar:
exame físico detalhado
avaliação funcional
medidas subjetivas de dor
exames de imagem quando indicados
Essa abordagem multimodal pode contribuir para uma compreensão mais completa da condição e apoiar melhor o raciocínio clínico na tomada de decisão terapêutica.
Conclusão
Este estudo demonstra que, entre diferentes medidas clínicas de dor utilizadas na avaliação da tendinopatia de Aquiles, a dor à palpação foi a única associada às alterações estruturais do tendão observadas por ultrassonografia.
O achado reforça o valor do exame físico no raciocínio clínico e sugere que a palpação do tendão pode fornecer informações relevantes sobre o estado estrutural do tecido.
Referência
Smith AK, Smitheman HP, Pohlig RT, Butera KA, Silbernagel KG.
Don’t Underestimate Pain on Palpation in the Clinical Exam for Achilles Tendinopathy.
International Journal of Sports Physical Therapy. 2026;21(3). doi:10.26603/001c.1564








