Um Olhar Crítico sobre a Evidência e os Conflitos de Interesse (Pirri et al., 2025)
Prezados colegas do Grupo do Tendão
A Eletrólise Percutânea (PE) tem ganhado considerável atenção em nosso campo, frequentemente apresentada como uma solução inovadora para diversas afecções musculoesqueléticas. No entanto, em um ambiente que preza pela ciência rigorosa e a prática baseada em evidências, é nosso dever analisar as informações com um ceticismo saudável, especialmente quando se trata de técnicas com forte apelo comercial.
A recente revisão sistemática de Pirri et al. (2025) buscou consolidar a literatura sobre a PE, analisando 38 estudos. Embora o artigo aponte para um potencial terapêutico, nossa leitura crítica, informada pelos dados sobre os criadores e promotores das técnicas proprietárias, nos leva a uma análise mais aprofundada e cautelosa.
O Que a Revisão Sugere, sob um Prisma Cauteloso
A PE, um procedimento minimamente invasivo de aplicação de corrente galvânica local, tem sido explorada na redução da dor e na melhoria funcional em distúrbios MSK. O que se observa, a partir dos dados, é que, em alguns contextos e estudos, a PE pode ter um papel como coadjuvante quando integrada a programas de exercício terapêutico (como treino excêntrico e alongamentos). A guia ultrassonográfica é consistentemente mencionada como um recurso para otimizar a precisão da aplicação.
As Indagações e Limitações Cruciais: A própria revisão destaca “zonas cinzentas” significativas:
- Heterogeneidade Extrema dos Protocolos: A falta de padronização em parâmetros como intensidade da corrente, duração das sessões e número total de aplicações levanta sérias questões sobre a replicabilidade e generalização dos resultados.
- Mecanismos de Ação Não Totalmente Elucidados: As explicações sobre como a PE realmente funciona ainda são majoritariamente hipotéticas, com estudos indicando mudanças moleculares e celulares, mas a ausência de um mecanismo térmico significativo, por exemplo, já foi demonstrada em modelos cadavéricos.
- Considerações de Segurança e Capacitação: A capacidade da PE de induzir respostas autonômicas (inclusive vasovagais) exige um rigoroso protocolo de segurança e uma capacitação profissional de altíssimo nível, suscitando debates sobre a autonomia de diferentes profissionais na aplicação da técnica.
- Um Adjunto, Não uma Solução Primária: A conclusão da revisão posiciona a PE como uma “intervenção de suporte”, longe de ser um tratamento de primeira linha estabelecido.
O Elefante na Sala: Conflitos de Interesse que Moldam a Evidência
Este é o ponto onde o paradigma exige ser desafiado. Nossa análise meticulosa dos 38 estudos primários na revisão de Pirri et al. (2025) revelou uma presença marcante de conflitos de interesse que podem influenciar substancialmente a narrativa científica:
- 15 dos 38 artigos (quase 40%) contaram com a autoria de indivíduos com vínculos diretos com a criação ou promoção das técnicas proprietárias de Eletrólise Percutânea (EPI® e EPTE®).
As Implicações para a Sua Prática: Os estudos com conflito de interesse, embora contribuam com dados técnicos e conceituais, tendem a veicular uma narrativa de “sucesso” extremamente otimista, ampla e assertiva, validando a técnica em múltiplas dimensões – desde a eficácia clínica e segurança até os mecanismos biológicos. Este tipo de “sucesso” é fundamental para a aceitação e comercialização da técnica.
Em contraste, os 23 artigos sem conflito de interesse observado (os outros 60%) oferecem uma perspectiva mais cautelosa, equilibrada e, por vezes, menos entusiasmada. Eles frequentemente posicionam a PE como um adjunto ou coadjuvante e, crucialmente, alguns deles apresentam conclusões que desafiam a narrativa otimista. Por exemplo, estudos independentes (como o de López-Royo et al., 2021) têm demonstrado que a PE, quando combinada com exercícios excêntricos, não necessariamente confere um benefício adicional significativo em comparação com o exercício excêntrico isolado para a tendinopatia patelar. A influência dos efeitos placebo e nocebo em intervenções de agulhamento, como destacado por Doménech-García et al. (2024), também adiciona uma camada de complexidade que não pode ser ignorada.
Conclusões e Apelo a uma Mudança de Paradigma
Diante deste cenário, a Eletrólise Percutânea é uma técnica com características promissoras que merece nossa atenção contínua. No entanto, é imperativo que nossa avaliação seja informada por uma leitura crítica e contextualizada dos vieses presentes na literatura.
- O Exercício como Pilar Central: Reafirmamos que o exercício terapêutico deve permanecer o pilar central da reabilitação para distúrbios musculoesqueléticos.
- PE como Potencial Adjunto: A PE pode ser considerada um potencial adjunto, mas sua inclusão deve ser baseada em uma justificativa clínica sólida, conhecimento dos limites da evidência atual e uma consideração explícita dos conflitos de interesse.
- Exigência de Pesquisa Independente: Precisamos de mais pesquisas independentes, metodologicamente robustas, que comparem a PE com outras intervenções e placebo, para determinar seu real valor e otimizar seus protocolos, livres de vieses comerciais.






